Sonho de garoto
Os raios da manhã são guardiões,
Dos afagos que havia nos abraços
Daquela moça que me aviltava a infância.
Ah, infâmia, de mim mesmo!
Criança no insulto do querer em ser adulto.
Lembro que bastava somente ouvir,
Os passos da sandália arrastando
Pelo piso frio do corredor,
Que eu, já me escondia, tímido,
E fingia dormir, por debaixo do cobertor,
Somente para que, delicadamente,
Ela tocasse em mim para me despertar,
Trazendo o chocolate misturado ao leite quente
Que, de uma certa forma, tal qual ela,
Em meu sonho de garoto,
Eu tanto sorvia freneticamente.
Era uma poção enfeitiçada na xícara,
Que continha a erupção do ímpeto hormônico,
Do fervor pré-adolescente
Que me levava a crer, sempre,
Que lá estava ela, deitada, no líquido esfumaçado.
E o que os meus lábios tocavam,
Era a pele, daquela moça, na cor do líquido,
Que tanto adoçavam a minha vida nas manhãs.
Ela tinha o sorriso branco feito um lençol de linho
Pendurado no varal da sua boca,
Secando ao vento dos meus suspiros,
E para o meu desconforto, imagino,
Vivendo no desejo de outros homens,
Que infelizmente, não era eu.
Hoje em dia, feito homem,
O tempo faz da lembrança uma cama desarrumada,
Onde a saudade foi a amante desajeitada,
Bagunçando as fronhas de um travesseiro,
Que nas noites, acolhe os desejos e sonhos,
Aguardando, quem sabe ainda escutar,
Em uma manhã qualquer,
O compasso da melodia, daquela sandália,
Arrastando pelo piso frio a mesma emoção,
Dos carinhos que me fizeram, descobrir a mulher!
Horacio Vieira

